31 de março de 2014

DUAS BANDAS NO TITANIC

DUAS BANDAS NO TITANIC
PARTE V
O Capitão Smith dispensou os operadores do telégrafo das suas funções às 2:10. Harold Bride lutou junto com outros para libertar um dos últimos botes desmontáveis. Às 2:17 o Convés dos Botes foi inundado e o bote flutuou livre invertido com Harold Bride no seu topo. “Ele [o navio] era um bela visão”, relembrou Bride ao olhar para o navio. Fumaça e fagulhas saiam da sua chaminé... O navio estava gradualmente a virar o seu nariz... A banda ainda estava a tocar. Acho que toda a  banda naufragou. Estavam a tocar então Autumn".
Ao menos dois homens que afundaram com o navio (e sobreviveram) notaram que a música tinha parado de tocar momentos antes do mergulho final: “quando fui pela primeira vez ao convés” escreveu A. H. Bankworth, “a banda estava a tocar uma valsa. A vez seguinte que passei... os membros tinham deixado os seus instrumentos e não estavam a vista”.
Pode-se reparar que quando as bandas pararam todos os botes já teriam partido e eles tinham apenas três minutos até ao fim. O RMS Titanic afundou aproximadamente às 2:20. Todos os membros das bandas morreram. Até o fim, naquele momento, a banda permaneceu anónima. Em nenhum relato dos passageiros eles foram mencionados por nome. Mas nos primeiros dias da cobertura da imprensa, eles emergiram como heróis, tendo sacrificado tudo em favor dos outros. Muitos sobreviventes testemunharam que dos seus botes salva-vidas puderam ouvir “Nearer My God to Thee” como a peça final. Isto deu certa medida de conforto a todos aqueles que perderam alguém. O público queria saber "quem eram estes bravos homens?".
Quando as semanas se passaram, o público ficou a saber que a banda que admiravam não estava coberta pelo “Workmen’s Compensation” (seguro contra acidentes dos trabalhadores). Como passageiros da Segunda Classe, eles não navegavam como tripulantes. Na noite do naufrágio o capitão Smith não dera a ordem para as bandas tocarem, nem mesmo os teria dispensado dos seus postos, porque eles não estavam sob o seu comando. O público entendeu que as bandas escolheram agir da maneira que quiseram agir. Houve um clamor público para que fosse dada alguma compensação para as famílias dos oito músicos que tinham morrido. Concertos beneficentes foram organizados nos dois lados do Atlântico. O que foi prestado no Royal Albert Hall, Londres, em 24 de Maio de 1912, foi apresentado por uma união de sete orquestras e sete condutores se revezando. Sir Edward Elgar sendo um deles.
As acções altruístas das bandas do Titanic tocaram um profundo acorde

24 de março de 2014

DUAS BANDAS NO TITANIC

DUAS BANDAS NO TITANIC
PARTE IV
Depois que o trio finalizou a sua apresentação de rotina, os ricos senhores de primeira-classe ainda se demoraram no restaurante e no café. Hugh Woolner recorda-se de se ter sentado com cerca de seis companheiros, bebendo Hot Whisky e água. "Repentinamente ficou muito frio na Sala de Recepção e no Restaurante à La Carte e as mulheres dirigiram-se para as suas salas. Então nós homens fomos para a Sala de Fumadores exactamente no piso de cima onde tinhamos estado antes. Apenas poucos minutos se passaram quando sentimos um pesado rangido, como um tipo de choque vindo de um ponto longínquo do lado da frente, na proa, e rapidamente passou ao longo do navio abaixo dos nossos pés. Todos se levantaram e correram para a porta giratória à ré. Um homem à minha frente viu um iceberg que se elevava 50 pés acima do convés, que estava a 100 pés acima do mar, e que desapareceu à ré".
Às 23:45 de domingo, 14 de Abril, uma quietude súbita preencheu cada cabine do grande vapor. Foi o silêncio das máquinas que tinham parado. Violet Jessop, que se tinha retirado para dormir, vestiu-se novamente e fez o seu caminho ao longo do corredor. “Quando saí, deparei-me com Jock (o líder da banda do trio de cordas) e a sua banda com os seus instrumentos. ‘Engraçado, eles devem ir tocar’, pensei eu, e a estas horas! Jock sorriu ao passar, parecendo bastante pálido, comentou, ‘Vamos apenas dar-lhes uma canção para animar as coisas um pouco’, e se distanciou". 
Tem-se dito que a banda começou a tocar às 00:15 na Grande Escadaria Dianteira, com a crença de que todos os oito membros começaram a tocar no mesmo lugar ao mesmo tempo. James Cameron por sua vez, colocou-os no Lounge. Mas as evidências sugerem agora que foi o trio que começou a tocar mais cedo, com os passageiros de primeira classe também reunidos noutro local. O Coronel Archibald Gracie, no Convés A, ouviu muito bem a música.
"Fui para a sala de fumadores, e, como de costume, vi lá sentados ao redor da mesa quatro bons amigos ... Foi nessa altura que também ouvi a banda tocar com o evidente propósito de incutir coragem e parar a confusão."
Jack Thayer por sua vez relembrou que as pessoas estavam inquietas, deambulando para dentro e fora do saguão da Grande Escadaria dianteira, não dando muita atenção para a música. Ela se infiltrava pelas escadas abaixo e para fora nos conveses externos. 
Estes outros cinco músicos estavam vestidos com os seus uniformes normais com lapelas verdes, dando a impressão de que tudo estava normal. Apenas para a sua apresentação as luzes estavam todas acesas e havia apenas a noite negra cheia de estrelas além do domo de vidro ornamental, acima da escadaria. 
Havia uma porta no topo da Grande Escadaria dianteira que acessava a parte dianteira do navio, onde os oficiais trabalhavam. Apenas uma curva adiante neste corredor estava a Sala de Telégrafo, onde os operadores estavam a enviar os sinais de socorro CQD e SOS. Desde as 23:55 Harold Bride, operador assistente, ouvia a música da banda “... primeiro enquanto trabalhávamos no telégrafo, quando havia um ragtime para nós...”
A maioria dos passageiros reflectia o estado do navio, calmo na superfície, mas com um profundo turbilhão agitando-o por dentro. A banda tocava Alexander’s ragtime enquanto Lily May Futrelle em pé discutia a situação com o seu marido e outros passageiros da Primeira Classe. De repente um grupo de carvoeiros de caras enegrecidas surgiu repentinamente pelas escadas das profundezas dos porões. “Num instante nós entendemos que a situação era desesperante, que os compartimentos teriam falhado ao evitar a invasão da água."
A ordem foi dada para que as mulheres e as crianças fossem para o Convés de Passeio, o Convés A. Quando o Segundo Oficial Lightoller enchia o bote salva-vidas nº 6 a bombordo ele “... podia ouvir a banda tocar um tipo alegre de música. Eu não gosto de jazz, a princípio, mas fiquei grato de ouvi-la naquela noite. Acredito que aquilo ajudou-nos a todos.” A americana Margareth "Molly" Brown estava no bote 6. Quando o bote foi descido ela estava “... atenta aos acordes musicais que flutuavam no ar da noite...”.
Pela 1:45 os músicos colocaram os seus coletes salva-vidas e continuaram a tocar. Enquanto isso, a cena se desenrolava como num sonho. As mulheres e crianças foram separadas dos homens, os botes eram enchidos, baixados, muitos com espaços vagos. E a banda mantinha-se a tocar. Tocaram além do ponto de esperança por sobrevivência. William Sloper relembrou, “Algumas das pessoas resgatadas que foram as últimas a deixar o navio disseram-me que quando elas partiram a banda encontrava-se a tocar... e que foi um acto heróico, mas medonho ao ouvi-los.”
Archibald Gracie, no seu livro "A Verdade sobre o Titanic" de 1913 revela ainda:
"O Sr. e a Sra. Strauss, o Coronel e a Sra. Astor e outros meus bem conhecidos estavam entre aqueles ali reunidos no lado de bombordo do Deck A .... Foi então que a banda começou a tocar, e continuou, enquanto os botes estavam sendo descidos. Consideramos esta uma acção sábia que tende a acalmar a excitação. Eu não conhecia nenhuma das músicas, mas sei que eram alegres e não eram hinos."
Kate Gold e Annie Martin, duas camareiras também mencionaram os homens que tocavam as suas músicas numa outra área, no convés mais alto de primeira-classe junto à popa do navio. O facto destas duas senhoras terem embarcado no bote salva-vidas nº11 sugere que a sua experiência fora passada perto de onde o trio desempenhava as suas funções, que tocavam um nível mais abaixo no Deck A. Elas relataram a sua experiência aos jornais da época: 
Kate Gold, Western Daily Mercury, 30 de abril de 1912
"No convés... a banda tocava música ragtime. Com a tripulação saindo nos botes, era um facto digno de nota o quanto estes homens estavam tão interessados e envolvidos no seu dever. Eram esses músicos elegantes, que não iriam parar de tocar sequer para colocar os coletes salva-vidas que foram trazidas para eles."
Annie Martin, camareira, Liverpool Daily Post de 1912
"Eles estavam a tocar. Quando saímos ao lado do navio [no bote salva-vidas nº 11 às 1:25] os homens estavam sentados na escada do convés mais à frente do navio com coletes salva-vidas ao seu lado. Eles não estavam a fazer nenhuma idéia de colocar os coletes. Muitos deles estavam a fumar. Outros iam batendo os pés ao ritmo da música."
Kate Gold, camareira, Liverpool Daily Post de 1912
"Quando nós deixamos os homens no navio, estavam sentados no convés, fumavam cigarros e ao mesmo tempo batiam com os pés ao ritmo da música da banda. Esses passageiros e os homens da banda, também tinham os seus coletes ao seu lado, e eu estava especialmente impressionada com o vislumbre de um violinista que tocava constantemente, com um grande salva-vidas na frente dele. A música era ragtime naquele momento."
É importante não levar à letra alguns detalhes nesses relatos, que foram interpretados e escritos por jornalistas, e podem ter sido alterados inadvertidamente por eles. Note-se que "no convés" passa uma imagem da banda que toca cá fora. É possível que uma das camareiras tenha falado que os homens da banda tocavam no convés (uma forma comum para se referir a qualquer nível do navio dentro ou fora dele), e que o repórter tenha assumido o convés exterior. A versão que especificou que "Quando saímos ao lado do navio os homens estavam sentados na escada do convés mais à frente do navio..." coloca-os dentro do navio, no convés A, já o bote descia.
Embora ainda diga: "sentados na escada do convés mais à frente do navio...", que parece apontar directamente para um local de desempenho na parte da frente do navio, tudo o mais que se sabe sobre Gold e Martin e as suas experiências é que estas aconteceram mais à popa: a presença de homens fumadores coloca-as perto da sala de fumadores no convés A, bem como os seus lugares no barco salva-vidas nº 11, que foi descido na área de Segunda Classe na parte do navio mais à popa a estibordo.
Outra dica para saber se os músicos tocaram ou não separadamente vem da menção do número de homens na banda. O relato de Washington Dodge passageiro de primeira-classe, que tinha visto o quinteto actuar nessa noite de domingo na Recepção de Primeira Classe, refere que ele viu a mesma banda tocar após a colisão.
Washington Dodge, a perda do Titanic de 1912
"Após a colisão a banda que tinha tocado no início da noite o habitual concerto de domingo à noite, continuou a tocar. Eles tocaram ragtime e outras músicas animadas. Mas alguns momentos antes do navio afundar, quando o perigo era evidente para todos, eles estavam a tocar "Lead Kindly Light". Havia cinco músicos, todos morreram. "
O relato de Dodge é interessante porque ele identifica o número de membros da banda, o que sugere o quinteto que tocava isolado dos restantes. Através das suas palavras denota-se que prestou atenção à constituição da banda naquele momento, porque foi capaz de dizer que era a mesma banda de cinco membros que tinha tocado anteriormente. Apesar disso, ele saiu no barco 13, situado mais à popa, eram 1:25. Sendo assim, ele não teria ouvido o quinteto no último momento para poder dizer com clareza suficiente a partir do barco salva-vidas o hino que ele mencionou, mas poderia tê-los visto a partir dele.
Conclui-se assim que o quinteto estaria no convés dos botes junto da entrada da Grande Escadaria no lado bombordo, e o trio no convés A mais à popa junto da Sala de Fumadores.
Na próxima semana a última parte e o fim dos oito músicos.

DUAS BANDAS NO TITANIC

DUAS BANDAS NO TITANIC 
PARTE III
Em 10 de abril de 1912, o RMS Titanic partiu da cidade de Southampton, Inglaterra. Cada passageiro na Primeira e Segunda Classe recebeu um pequeno panfleto intitulado White Star Line Music. Comumente conhecido como White Star Line Songbook, ele listava os títulos e compositores de 341 partituras. Além destes, haviam categorias musicais como National Anthems, (Hinos Nacionais) e Strauss Waltzes (Valsas de Strauss). É desconhecido quantos títulos no panfleto os músicos tinham disponíveis para si. 
Entre os que embarcaram estavam os oito músicos que viajavam como passageiros da Segunda Classe, homens que carregavam caixas de instrumentos como sua bagagem. A banda foi especialmente seleccionada por uma agência chamada C. W. & F. N. Black. Alguns tinham experiência em outros navios, e outros colocavam os pés no convés do Titanic para sua primeira experiência no mar aberto. Passagem gratuita e alimentação eram parte da sua compensação, além de um pequeno salário mensal. Os seus verdadeiros ganhos viriam através de gorjetas.
Em 1912 era típico que músicos de hotel tocassem onde não pudessem ser vistos pelos seus ouvintes, até mesmo atrás de plantas (por isso existia o termo Músico de Palm Court). Mas este não era o caso do Titanic. Os pianos eram peças de destaque, em plena exposição em cada sala. A intenção era de que os músicos fossem ouvidos e vistos, a música era parte do luxo do navio. No entanto havia uma distância profissional entre a banda e os passageiros, que poderiam conhecer os músicos de vista, mas não por nome.
Kate Buss, uma passageira da Segunda Classe, relembrou um concerto que ela e um amigo ouviram nas escadas. Kate desenvolveu um carinho pelo celista da banda e queria pedir-lhe que tocasse um solo, mas ela ficou nervosa em falar com ele directamente. Ela escreveu: “O homem do celo era o meu favorito. Toda a vez que ele finalizava uma peça ele olhava para mim e sorria”. Outra passageira, Juliette Laroche, relembrou numa carta, “Escrevo na Sala de Leitura: há um concerto aqui, perto de mim, um violino, dois celos, um piano."
Helen Churchill Candee, uma passageira escritora americana que se hospedou na Primeira Classe, publicou em suas memórias sobre ter escutado a banda na Sala de Recepção: “... depois do jantar quando o café foi servido em todas as mesas ao longo da grande sala geral de descanso, foi por lá que a orquestra tocou. Alguns disseram que ela era má em Wagner, outros disseram que o violino era fraco. Mas isso era falatório, nada a bordo era mais popular que a orquestra. Poderia-se notar isso pela maneira com que todos se recusavam a sair. E todos pediam por algum êxito favorito. A menina mais bonita pediu música para dançar, marcando o passo com os seus saltos de cetim e balançando os seus braços adolescentes ao ritmo. Hugh Woolner pediu por Dvořák, enquanto ela pediu por Puccini, e ambos tiveram os seus gostos atendidos, porque a orquestra era hábil e disposta”.
No domingo, 14 de abril, havia várias coisas na mente dos passageiros: a súbita queda da temperatura, um concerto beneficente que seria prestado na segunda-feira, 15 de abril, em nome das crianças órfãs que perderam os seus pais no mar; mensagens telegráficas escritas e enviadas para parentes e amigos; e cantos de hinos e cultos que estavam sendo celebrados na Primeira e Segunda Classe. As 10:30 da manhã os passageiros da Primeira Classe assistiram a um culto religioso no seu Salão de Jantar. Pessoas de Segunda e Terceira Classes também foram convidadas a subir até ao grande salão para assistir ao serviço religioso. O Coronel Archibald Gracie relembrou ter cantado o hino "Oh God Our Help in Ages Past" e de ter sentido a força das palavras. 
Os passageiros passaram a tarde na sala de leitura e livraria, discutindo a velocidade do Titanic e de quando ele poderia aportar em New York, na quarta-feira de manhã, ou antes, na noite de terça-feira. 
Haviam rumores na Primeira Classe que Bruce Ismay, director administrativo da White Star Line, teria mostrado uma mensagem telegráfica que alertava para icebergs, e feito uma brincadeira dizendo que eles poderiam “... aumentar mais o vapor e fugir deles”.
Dependendo de onde os passageiros estivessem no domingo a noite, eles poderiam cantar hinos ou bebericar bebidas quentes enquanto escutavam a banda. Robert Norman, um engenheiro escocês, tocou piano para um hino informal no domingo à noite no Salão de Jantar da Segunda Classe. Lawrence Beesley relembrou os tons sussurrados com o qual a congregação cantou o hino “Eternal Father, Strong to Save”, que possui um verso que termina com a frase “... para aqueles em perigo no mar”.
A banda de cinco membros apresentou o seu concerto nocturno na Sala de Recepção da Primeira Classe do lado de fora do Salão de Jantar. O Coronel Gracie assistia com os seus amigos, onde escutou a “sempre agradável música” e apreciou o desfile de muitas mulheres bonitas que estavam vestidas em plenos trajes formais. A Condessa de Rothes notou que a última canção tocada foi uma peça de Offenback, “Os Contos de Hoffman".
No final da apresentação Helen Churchill Candee relembrou,“As pessoas dirigiram-se para as suas cabines, com um alegre ‘até manhã’, até que o grupo ficou sozinho, e os únicos sons que faziam eram aqueles dos instrumentos sendo depositados nos  seus leitos de veludo”.
O quinteto então se apresentou no saguão de entrada da Segunda Classe. Kate Buss fez o seu caminho até à apresentação depois de comparecer ao cântico do hino.“Naquela noite”, Kate relembrou, “o pianista perguntou-me se me importaria de recolher as contribuições, caso eu tivesse gostado da música.” Depois, “Eu vi o pianista quando me dirigia para a cama, e prometi-lhe.” (as contribuições eram então oferecidas aos músicos no último dia da viagem).
O Café Parisiense e o Restaurante à La Carte estavam sempre abertos. Mahala Douglas jantou no restaurante naquela noite de domingo, indo para lá por volta das 20:00 e ouvindo os músicos tocando no corredor externo. 
Violet Jessop, uma camareira da Primeira Classe, também ouviu a apresentação do trio ao passar pelo local. “Oh aquele domingo à noite! A música era a mais alegre, liderada pelo jovem Jock, o primeiro violinista; quando me dirigi a ele durante o intervalo para fumar ele sorrindo dirigiu-se a mim no seu sotaque escocês, dizendo que estava pronto para dar uma ‘canção de verdade, uma canção escocesa, para finalizar com chave de ouro”.
Na próxima semana iremos continuar com os depoimentos dos sobreviventes e de como se recordam dos músicos durante o naufrágio.

10 de março de 2014

DUAS BANDAS NO TITANIC

DUAS BANDAS NO TITANIC 
PARTE II

Durante a viagem os oito músicos do Titanic eram distribuídos por duas bandas, um quinteto e um trio. O quinteto era liderado por Wallace Hartley violinista, e o trio por John Law Hume violinista e pianista. As apresentações das duas bandas durante a viagem compunham-se do seguinte modo: 
O quinteto tocava três vezes por dia na segunda-classe: entre as 10:00 e as 11:00, entre as 17:00 e as 18:00 e entre as 21:15 e as 22:15 numa área para apresentações localizada no saguão de entrada do Convés C ao lado da base do mastro do navio, fora do caminho dos passantes, mas em local privilegiado para concertos. Quando as portas eram abertas a música poderia percorrer todo o convés até à Biblioteca da Segunda Classe, e descer os lances da escadaria de carvalho para os outros conveses.
Os passageiros da Primeira Classe também ouviam a apresentação deste quinteto três vezes por dia, mas em dois locais diferentes: a primeira era no topo da famosa Grande Escadaria dianteira das 11:00 até depois do meio-dia. Esta era a entrada a partir do Convés de Botes, e os acordes da música poderiam ser ouvidos do lado de fora e pelas escadas abaixo. As apresentações na Primeira Classe também aconteciam na Sala de Recepção do lado de fora do Salão de Jantar no Convés D, das 16:00 às 17:00 e das 20:00 às 21:15. 
A segunda banda do Titanic era um trio que se apresentava na Sala de Recepção da Primeira Classe no Convés B do lado de fora do Restaurante à La Carte e do Café Parisien. Esta banda era um trio de cordas, e os seus músicos apresentavam-se exclusivamente na área da Primeira Classe. A Grande Escadaria de popa abria-se para a Sala de Recepção, que era um amplo espaço fora do Restaurante. Os passageiros da Primeira Classe ao descer as escadas poderiam ouvir a música do trio antes mesmo de sentirem os aromas da cozinha. Apenas a elite da Primeira Classe do Titanic escolhia jantar nesta área, e estas refeições eram cobradas em separado sobre os bilhetes de embarque que já tinham refeições incluídas. 
Ao contrário do que é mostrado no filme de Cameron, a banda não tocava no salão de jantar da primeira e segunda classes durante o período de refeição. Apesar de nestes salões existir um piano, este servia exclusivamente para os serviços religiosos.
Na próxima semana vamos rever os depoimentos dos sobreviventes que confirmam a posição dos músicos no navio.

DUAS BANDAS NO TITANIC

DUAS BANDAS NO TITANIC 
PARTE I 

O heroísmo dos oito músicos do Titanic em permanecerem a bordo até ao fim tocando variadas peças musicais para divertir e acalmar os passageiros sobre a tragédia que se abatia sobre estes, é talvez dos pontos mais conhecidos do naufrágio do Titanic. A controvérsia persiste na última música tocada por eles antes de morrerem. Os sobreviventes, na sua maioria, afirmam que foi Nearer My God To Thee, outros dizem que apenas tocaram Alexander's Ragtime Band o tempo todo. Harold Bride, o operador de rádio, recordava-se perfeitamente da banda estar a tocar o hino episcopal Autumn. Um sobrevivente relata que se lembra muito bem da banda nos últimos momentos e que estes não estavam a tocar. A resposta para estes relatos diferentes pode estar nos minutos que cada sobrevivente se cruzou com os músicos, ou então algo mais cientifico em que o cérebro tenha gravado na memória de cada sobrevivente um momento mais marcante como achando que seria o último de suas vidas, tal como boa parte destes afirmaram que embarcaram no último bote disponível. É provável que Wallace Hartley, o líder da banda, tenha escolhido como última peça Nearer My God To Thee na versão "Propior Deo", dado o facto do seu pai, um maestro Metodista, usar esta versão na sua igreja por mais de 30 anos. Era também do conhecimento de todos o desejo de Hartley de esta ser a peça que um dia gostaria que fosse tocada no seu cortejo fúnebre. Ellwand Moody, um músico no Mauritânia, que serviu sob as ordens de Hartley disse a um jornal britânico: "Eu lembro-me que um dia perguntei o que ele faria se estivesse a bordo de um navio a afundar e ele respondeu: 'Eu acho que não faria nada melhor do que tocar ‘Oh God Our Help in Ages Past’ ou ‘Nearer, My God, to Thee’.” É certo que nos momentos finais depois de Nearer My God to Thee eles pararam de tocar, porque o seu corpo foi encontrado com os braços em volta de uma mala ao peito onde continha o seu violino que lhe era muito querido, já que tinha sido oferecido pela sua noiva. Então porque motivo outros sobreviventes não se recordam de Nearer My God To Thee mas de outras músicas? 
Porque eram duas bandas e não uma que tocava a bordo! Para começar, os oito músicos do Titanic não eram empregados da White Star Line. Eles foram recrutados por uma agência de música de Liverpool que por sua vez prestava serviços aos navios e assim embarcaram como passageiros de 2ª classe. Os oito músicos dividiam-se em dois grupos: um quinteto e um trio. 
Existem evidências de que as bandas nunca tocaram juntas quando o Titanic afundou. Deste modo, as músicas deles teriam chegado a mais passageiros. O efeito calmante das suas músicas teria coberto uma área maior do navio. A ideia de que as bandas se uniram para tocar nas horas finais do Titanic originou-se com Charles Black, da firma C. W. & F. N. Black, empregadora da banda do Titanic, um homem que jamais tinha posto os pés no Titanic e que nem testemunhou a tragédia. No entanto, essa ideia ganhou força com a imprensa e o público e se tornou parte da lenda do naufrágio do grande navio. Uma análise dos relatos dos sobreviventes e um conhecimento da planta do navio sugere o contrário: que o quinteto e o trio tocaram em grupos separados. Nas próximas semanas vamos analisar a fundo esta teoria.